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Conflito e resistência: a luta pela agroecologia

 

Por Camila Nobrega

De Juazeiro, Bahia. À beira do Velho Chico, a cidade de Juazeiro da Bahia – sim, aquela que dividiu o coração de Gonzagão com a vizinha Petrolina em uma canção eternizada na voz do rei baião –foi a capital de uma luta difícil, que afeta a vida de todos os brasileiros, sem distinção de raça, credo, idade, região ou gênero: o direito à alimentação saudável. Cerca de duas mil pessoas estiveram reunidas no município, maior aglomerado urbano do semiárido, para debater e conhecer experiências de produção de alimentos diversificada e sem agrotóxicos por pequenos agricultores de diferentes regiões do país. A esse movimento se dá o nome de agroecologia, ainda pouco conhecida, mas na qual trabalham milhares de pessoas em todo o país. Parte delas esteve na Bahia neste momento para o III Encontro Nacional de Agroecologia.

Alguns enfrentaram longas viagens – longas mesmo -, como Luciomar Monteiro, que levou quase 80 horas em um ônibus, desde seu município, Ariquema, em Rondônia. O agricultor viajou com outras 39 pessoas, levando na bagagem sementes amazônicas, artesanato, cartazes, instrumentos, fotos e uma rica quantidade de informações sobre o cultivo de alimentos sem o uso de venenos, em meio a uma região onde o agronegócio avança a cada dia.

Luciomar Monteiro / Fotos de Renato Cosentino

“Há 20 anos, nós adotamos o lema ‘veneno não’. Hoje, somos 10 famílias, produzindo e comercializando coletivamente, com cozinha coletiva, trabalho comum. Para subsistência, nós produzimos quase tudo. E para o mercado local, sempre de forma direta, por meio de feiras e entregas em casa, vendemos hortaliças, polpa de frutas, farinha de mandioca.”

As olheiras pelos três de viagem contrastavam com o sorriso de ponta a ponta no rosto do agricultor, que não perde a animação. Ele chegou ao encontro com o objetivo de conhecer agricultores de outras regiões que também enfrentam dificuldades, devido à falta de incentivos por parte do poder público – a parcela de recursos destinada ao agronegócio é muito maior do que a voltada aos pequenos agricultores agroecológicos – e muita pressão de outras atividades econômicas, além da batalha para a demarcação de terras.

Ele não teve muita dificuldade de encontrar pessoas que vivem realidades parecidas. A poucos metros da tenda de Rondônia estava José Conceição Ferreira, ou, se preferir, Jitaí Pataxó, seu nome indígena. Ele é um dos caciques de uma aldeia Pataxó do município de Prado, Extremo Sul da Bahia.

“Nossa luta não é fácil, é muito dolorosa. Não querem demarcar nossas terras. E nós estamos aprendendo a lidar com ela cada vez melhor. A agroecologia mostra que não precisa desmatar e podemos plantar tudo junto para a alimentação. Mas os fazendeiros querem nossas terras, terras que são nossas há muitas décadas, para plantar, e com veneno”.

O povo Pataxó vive um dos conflitos de terra mais violentos do país, especialmente desde que o governo da Bahia, na gestão de Antônio Carlos Magalhães loteou terras onde os índios já viviam para afilhados políticos. Em 2000, o índio Henrique Iabaday chegou a apontar uma flecha para ACM por este fato, após documentos comprovarem a denúncia.

Noêmia Magalhães

No Rio de Janeiro, assim como em São Paulo, a pressão maior é devido à especulação imobiliária e a grandes empreendimentos, parte do modelo desenvolvimentista adotado no Brasil. É o caso da cidade de São João da Barra, onde está sendo construído o Porto do Açu. Moradora do município, Noêmia Magalhães está em Juazeiro representando os agricultores impactados pelo empreendimento, que foram expulsos de suas casas e viram a produção cair mais de 50% devido à salinização do solo no local, como mostra o dossiê “O projeto Minas-Rio e seus impactos socioambientais” (http://issuu.com/ibase/docs/liv_ibase_minerio_final4)

“É confortante conhecer outros movimentos de resistência nos territórios em vários lugares do país”, disse Noêmia Magalhães.

Joselita Benjamin, agricultora da região de Campo Grande, também no Rio, leva ao encontro a sabedoria relacionada à agricultura urbana.

Joselita Alves

“A resistência também pode acontecer dentro de casa. Trabalho com hortas caseiras, tenho até plantas medicinais no meu quintal”, disse ela, que, depois de mais de 30 horas de viagem participava animada das rodas de samba que se formavam na tenda do Rio de Janeiro.

O evento, organizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), com a participação de diversas entidades que compõe esta rede, além de movimentos sociais do campo, da saúde, da economia solidária e do feminismo, é o resultado de um processo de mapeamento e visita a experiências concretas por meio de Caravanas Agroecológicas e Culturais, que começaram em 2013. O encontro aconteceu entre os dias 16 e 19 de maio. 

 

 

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