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Segunda fase da campanha Comida é patrimônio: ocupe a cultura alimentar

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O Fórum Brasileiro de Segurança e Soberania Alimentar (FBSSAN) lança em outubro a segunda etapa da Campanha Comida é Patrimônio em parceria com a Malagueta Comunicação. Para este ano, a proposta é de uma ação cultural conectiva, com dinâmicas comunicativas entre diferentes grupos e atores, identidades individuais e coletivas, mediadas pelo diálogo, numa relação social e política para a construção de conhecimentos.

Com o tema “Ocupe a cultura alimentar”, serão expostos na internet uma série de 10 pensamentos-pimentas, criados a partir da Colagem, linguagem artística que combina imagens, texturas, palavras e movimentos para compor uma nova imagem, provocando leituras e interpretações ao justapor diferentes materiais. O artista surrealista Max Ernst, considera essa linguagem não apenas como uma técnica de arte plástica, mas um conceito, a que o próprio Ernst chamou de collage.

Segundo o filósofo Vílem Flusser, a colagem evoca, por exclusão e recusa, o mundo codificado e impõe por justaposição e, portanto, por síntese, a releitura de tal mundo. “Isso porque a síntese proposta pela colagem não é um fim em si mesma, mas incita a desmembramentos infinitos, que são as possibilidades de reler o mundo”.  Assim, o Fórum, em sua campanha, reafirma a defesa da comida como um patrimônio, a partir das diversidades de sentidos que essa linguagem pode suscitar, estreitando os vínculos entre Segurança Alimentar e Cultura. As colagens  foram feitas manualmente pela artista visual Carolina Amorim e a identidade visual da campanha foi desenvolvida por Gregor Faching.

A primeira série de pensamentos-pimenta terão os seguintes temas: Caminhos, fluxos e identidades; Quem mexeu na minha comida?; Cadê a comida de verdade? e Bio…what? Aonde está a biodiversidade?, além do tema-chave “Ocupe a cultura alimentar”. A segunda série será lançada em novembro. Cada pensamento será postado na página do Facebook do Fórum durante uma semana numa proposta de exposição colaborativa, onde os internautas serão provocados a compartilhar suas impressões. Com essas ideias e palavras, será construída uma matéria, com as principais questões levantadas. Ao final das postagens nas redes sociais a exposição itinerante Comida é Patrimônio ganhará as ruas com a exibição da mostra das colagens em eventos e encontros organizados pelo Fórum, em parceria com outras organizações ou na qualidade de convidada em eventos comprometidos com a temática dissociados do Fórum.

Ocupar a cultura alimentar, por quê?
Nosso convite, provocação ou convocação (como desejar o leitor), é para ocupar a cultura alimentar com sua rica agrobiodiversidade de saberes, fazeres e práticas, do quintal à mesa. Acreditar e apoiar a agricultura familiar camponesa, a agroecologia e a cultura é religar, tecer e reconstruir, em redes, uma nova forma de fazer política a partir do pensamento complexo, do diálogo de saberes e das epistemologias latinos-americanas que emergem, como o Bem-viver e o Bem-Conhecer e, poque não, o Bem-Comer?. Ocupar a cultura alimentar é também compreender a potência de três práticas que estão intrinsecamente ligadas a nossa maneira de existir e organizar a sociedade:  cozinhar, comer junto e compartilhar comida.

Dessa forma, e, a partir do ato alimentar, podemos trazer de volta as conexões simbólicas do comer, que é uma das maneiras mais eficaz de comunicação e autorepresentação, nas quais podemos expressar e preservar a identidade cultural, construindo uma luta efetiva contra a colonialidade do poder e do saber. É preciso dar visibilidade a outras formas de produzir alimentos e construir conhecimentos sobre o que se come, bem como anunciar a diversidade de maneiras de comer, viver e de se comunicar por meio da comida.

De acordo com Víctor Toledo e Narciso Barrera-Bassols, autores do livro A memória biocultural”, o modelo social dominante se restringe a imitar ou a reproduzir uma única forma de observar, conhecer e conviver com o mundo, isto é, com os seres vivos (e não vivos), assim como os processos ecológicos locais, regionais e globais do planeta.

Boaventura Souza explica que o Estado monocultural é “cienticista” (apoiado nos conhecimentos científicos) e excludente. É o modelo de Estado imposto pelo Ocidente que desconhece povos indígenas, e está permanentemente contra eles. Esse Estado protege a ordem estabelecida pelo neoliberalismo, independentemente dos perigos para o futuro da sobrevivência da humanidade. As políticas dominantes dentro deste tipo de Estado no mundo agrícola afetam enormemente o meio ambiente; a monocultura afeta profundamente a biodiversidade e a qualidade química da terra e a qualidade dos alimentos. As massivas produções alimentares trazem problemas novos de armazenamento e transportes, que são faceados com novos problemas de insegurança alimentar. O uso de agrotóxico para possibilitar grandes produções – como os biofortificados com o seu co-irmão, os transgênicos – trazem novamente as questões técnicas e tecnológicas inerentes à produção alimentar.

É importante lembrar que as mãos que lavram a terra, as que cultivam frutos nativos, são as mesmas que transformam a colheita em uma diversidade de preparações culinárias, tão enraizadas quanto o próprio alimento cultivado. Segundo Maria Emília Pacheco, presidente do Consea Nacional e membro do Fórum, a campanha ressalta como da terra à mesa, a comida preserva o gosto do lugar por meio do paladar. Por isso, é urgente reforçar a necessidade de valorizar, proteger, preservar, compartilhar os sabores regionais do país, como estratégia para fortalecer a identidade cultural frente às ameaças impostas pela homogeneização e simplificação do gosto, com hábitos construídos nas agências de marketing das indústrias alimentícias.

Consideramos que um dos desafios neste momento está no prato de cada brasileiro em ocupar a cultura alimentar. Isso pode se converter numa resistência, numa contra-narrativa e contra-hegemonia frente às estratégias de dominação, por meio da práxis, ou seja reflexão e ação, de cada pessoa. O sociólogo e antropólogo Edgar Morin explica a práxis como o conjunto de atividades que efetuam transformações a partir de uma competência. É transformadora, produz movimentos, formas e performances. Essas interações criam organização, ser e existência.

Tendo em vista essa perspectiva da ideia de práxis, a luta pela soberania alimentar e da Segurança Alimentar e Nutricional deve encampar o compromisso com a  transformação social e tecnológica. Devemos entender a tecnologia como uma ferramenta de batalha, que deve ser usada para disputar políticas. Devemos procurar novas formas de ação, de comunicação e organização em rede, pautadas no afeto e não somente na internet, conectando as redes neuronais, sociais e digitais.

A comida representa o afeto. Crescemos com um repertório de conhecimentos sociais que vão, aos poucos, construindo nossas visões de mundo, com saberes, sabores, cheiros, gestos, os sons, vozes e canções apreendidos no cultivo de alimentos, na transformação culinária e no convívio das refeições. Esses conhecimentos formam, desde à infância, a base de nosso material cultural, como aponta o antropólogo norte-americano Sidney Mintz. Segundo esse autor, a “bagagem gustativa” acumulada ao longo da vida nutre o comportamento alimentar, e nos liga diretamente à nossa identidade e ao sentido de nós mesmos. Ao logo da vida podemos variar as práticas alimentares, indo das mais conservadoras às mais flexíveis.

Mintz observa que o peso do primeiro aprendizado tende a se constituir em poder duradouro em nossa memória. A comida é um sistema de comunicação capaz de comunicar (construir conhecimento com o outro, numa relação social e política), sem emitir uma palavra, sem discurso, num diálogo transversal, que vai além do que é dito. Mintz é um dos pensadores que nos mostram essa dialogicidade profunda e permanente que constrói nossa identidade alimentar.

Vamos levar esse afeto às redes digitais com arte, poesia e política. Apropriar-se da tecnologia também permite apoiar as pessoas a pensarem em soberanias dos territórios. Incitamos os cidadãos e as cidadãs que se alimentam e produzem o alimento para se apropriar na tecnologia como um modo de se libertarem do controle privado que as corporações impõem sobre o que comem, onde comem, onde compram e resistir à homogeneização dos gostos e à criminalização da cultura alimentar. #ocupeaculturaalimentar.

Equipe Campanha Comida é Patrimônio
Concepção:
FBSSAN e Malagueta Comunicação
Curadoria: Malagueta Comunicação
Coordenação executiva e editorial:
Juliana Casemiro
Textos: Juliana Dias e Mónica Chiffoleau
Colagens: Carolina Amorim
Design: Gregor Faching
Revisão: Rozi Billo

Fontes consultadas:
COHEN, Renato. Performance como Linguagem. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002.
DELEUZE, G, GUATTARI, F. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Editora 34, 2ª Edição – 2011.
MINTZ, S. Comida e antropologia: uma breve revisão. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 16, n º47, p. 31-42. 2001.
MORIN, E. Introdução ao Pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2011.
MORIN, E. O Método 1. A natureza da natureza. Porto Alegre: Sulina, 2ª Edição: 2003. MORIN, E. O Método 6. Ética. Porto Alegre: Sulina, 3ª Edição: 2007. 223 p. SANTOS, Boaventura. Refundación del Estado en América Latina Perspectivas desde una epistemología del Sur. Instituto Internacional de Derecho y Sociedad. Lima: 2010.
TOLEDO, V. M; BARRERA-BASSOLS, N. A memória biocultural: a importância ecológica das sabedorias tradicionais. Trad.: Rosa L. Peralta. 1ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
Internet: Colagem – esta técnica tem História – Collage: A Colagem Surrealista – Artigo de Aline Karen Fonseca.

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